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    Vilma Homero

     

    Conhecido como um marco da literatura mundial, William Shakespeare pode ser visto sob outras óticas. Segundo o historiador Alexander Martins Vianna, professor adjunto de História Moderna da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), desde as primeiras edições, a partir da última década do século XVI, as peças associadas ao nome de Shakespeare – como de outros autores daqueles tempos –, passaram por várias reedições e sucessivas alterações, segundo os cânones morais, estéticos e religiosos de cada época. Essas diferentes visões de uma mesma obra podem inspirar novos estudos socioculturais e políticos por parte de pesquisadores. Para incentivar pesquisas nesses temas ainda pouco abordados no Brasil, Vianna vem publicando vários estudos em seu site, procurando apontar diversas linhas de análise sobre a obra shakespeariana.

    “O objetivo é que estudantes de graduação e pós-graduação que visitem o sitepossam sair com ideias para teses e monografias. Ali há referências bibliográficas, organizadas de acordo com eixos temáticos”, fala o pesquisador. Organizado em 2009 e depois reformulado com recursos de um Auxílio à Pesquisa (APQ 1), da FAPERJ, o site reúne artigos e ensaios que chamam atenção para os códigos de autoridade, códigos raciais, relações etárias e de gênero, e a virada religiosa nos estudos culturais. “Os textos publicados na Idade Moderna sofrem reformulações de acordo com o lugar e a época. Não havia, por exemplo, preocupação com autoria de uma obra. Só a partir do século XIX, a ideia de autor passa a prevalecer na tradição editorial, o que torna relevante retornar às primeiras versões impressas de peças para se reconstituir linguagens e legibilidades específicas de cada época e local das edições. O nome de Shakespeare, por exemplo, só aparece numa edição impressa de Romeu e Julieta em 1622, mas não em edições anteriores, entre as quais, a mais antiga é de 1597, que sobreviveu até os dias atuais”, afirma Vianna.

    Como explica o pesquisador, nas primeiras edições de Romeu e Julieta, fica evidente a moral e tradição religiosa contemporâneas à época. Para começar, os personagens são identificados visualmente de acordo com seu comportamento moral. “As falas da ama de Julieta e de Mercúcio aparecem em tipo diferente, em geral itálico, destacando graficamente na página que são personagens cômicos, de baixa moral. No caso da ama, ficam sinalizados seus modos de alcoviteira, o lado engraçado e perigoso da história. Já Mercúcio, embora nobre, é também um falastrão, fanfarrão bélico, a quem os códigos morais da época destinam uma punição no final. Assim, ele acaba tendo uma morte sangrenta”, exemplifica Vianna.

    Se nos personagens de baixa moral os trechos correspondentes são grafados em itálico ou em prosa, para aqueles de moral elevada, há versos bem elaborados, grafados no românico, que servia como tipologia padrão. “Mesmo seus erros e acertos são exemplares, servem como modelo para o leitor”, diz Vianna. Outra dimensão importante nas primeiras edições de Romeu e Julietaé o tratamento da idolatria amorosa, condenável pelos códigos morais e religiosos da época, já que seriam emoções perigosas, capazes de pôr em risco a ordem estabelecida, por gerar uma atmosfera de propensão à desobediência às leis e à autoridade estabelecida. “Nesses casos, trata-se de personagens mais voltados para a carne do que para o espírito. A eles, como também acontece com os fanfarrões bélicos, é sempre reservado um final sangrento.”

    Cada edição propõe, por exemplo, um Hamlet diferente. “A partir do século XIX, no entanto, se procurou, a partir de trechos de diferentes edições, recompor o que seria o Hamlet mais próximo do original. Com isso, porém, se apaga o contexto religioso que está presente nas primeiras edições da obra. O que significa que cada edição deve ser lida como um livro distinto”, diz Vianna. Esse, por sinal, é outro tema pouco abordado nos estudos realizados no Brasil de peças shakespearianas. “Pesquisas voltadas para o aspecto religioso devem voltar às primeiras edições e analisar cada uma como um todo distinto, que não reflete necessariamente uma única intenção autoral”, enfatiza o pesquisador.

    Ele explica que o personagem Hamlet da edição de 1603 é mais explicitamente puritano do que na edição do ano seguinte. Isso porque a companhia teatral a que Shakespeare pertencia passa a ficar sob a patronage do rei escocês James VI, coroado James I da Inglaterra em finais de 1603. “O momento é particularmente delicado na Inglaterra, o que se reflete na obra, já que é visível a preocupação em atender às demandas políticas e religiosas do rei, que naquele momento enfrenta a ação dos puritanos que desafiam sua autoridade. O tema do tiranicídio não poderia ser tratado de um jeito que ferisse a autoridade de James I. Já a edição de 1604 tornava a caracterização dramática de Hamlet mais ambígua em relação ao tema da vingança e Gertrudes parece menos explicitamente cúmplice do assassinato do pai de Hamlet.”

    Sob a ótica religiosa de James I, o fantasma em Hamlet poderia estar retratando uma aparição demoníaca da vingança. “Especialmente se olharmos sob as lentes do Tratado de Demonologia, publicado pelo próprio James I em 1597. Segundo o tratado, a melancolia seria um estado de espírito que tornaria as pessoas suscetíveis às tentações demoníacas. No caso de Hamlet, além da melancolia, também o desequilíbrio reinante em sua casa o torna suscetível às tentações, seguindo exatamente a linha explicativa de James I”, afirma o pesquisador. Além disso, o formato das edições de Hamlet pode interferir na percepção do código religioso e na moral da trama. “Quando, por exemplo, uma edição atual da peça Hamlet cria didascálias que chamam o fantasma de ‘espírito do rei morto’, já se estaria propondo um ponto de vista católico à leitura, uma vez que o catolicismo, ao reconhecer a existência do purgatório, admite a possibilidade do retorno de um morto. Na visão religiosa jacobita, nega-se a existência do purgatório e, portanto, a possibilidade do retorno de um espírito. As duas primeiras edições de Hamlet falam em fantasma ou espectro, não em “espírito do rei morto’“, afirma o pesquisador.

    Outro caso interessante que, além de códigos religiosos, envolve estereótipos raciais é O Mercador de Veneza. Em função do Holocausto, depois da Segunda Guerra Mundial, passou-se a destacar muito o tema do antissemitismo na peça. No entanto, como afirma o pesquisador, para o leitor inglês de finais do século XVI, a representação cênica de Shylock seria semelhante à forma como se retratava o puritano em outras peças. “Não há no final do século XVI grande visibilidade de judeus na Inglaterra. Embora o personagem seja judeu, os estereótipos que o caracterizam são os mesmos que representam o puritano cênico. Em outras palavras, eles arrogam para si o exclusivismo e perfeição na fé, jactam-se de seus méritos como eleitos, são rigoristas em matéria de leis a ponto de esvaziar o atributo régio da equidade, e embora falem muito em caridade são pouco propensos a ela, praticam a usura e cobram implacavelmente suas dívidas nos tribunais.”

    Com diversos artigos e ensaios publicados no site, o pesquisador espera que cada um deles sirva como ponto de partida para uma revisão crítica de Shakespeare. “Nosso objetivo é suscitar no público acadêmico brasileiro curiosidade e interesse de pesquisas sobre as relações entre religião, literatura e drama teatral nos séculos XVI e XVII.”

     

    © FAPERJ

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