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    por Luís Antônio Giron

    Inicio pela conclusão: hoje tornou-se quase impossível desgostar-se dos dramas e comédias do escritor inglês William Shakespeare (1564-1616). Ninguém teria autoridade estética ou moral para refutar a obra do Bardo, de Romeu e Julieta aoRei Lear, de A tempestade a Hamlet e Macbeth. Quem o fizesse cairia na execração pública e perderia suas credenciais acadêmicas, caso as tivesse. O romancista russo Liev Tolstói (1828-1910) teve coragem (ou, para algum, a audácia) de contestar a arte de Shakespeare, quebrando uma unanimidade de pelo menos um século.

    Tolstói cometeu a “heresia” no texto “Sobre Shakespeare e o teatro (um ensaio crítico”, publicado em 1906 – e agora relançado no Brasil em tradução feita diretamente do russo por Anastassia Bytsenko, dentro do volume Os últimos dias de Tolstói, organizado pelo escritor americano Jay Parini, publicado recentemente pela Companhia das Letras. O material de Parini serviu como base para o romance A última estação, de 1990, agora adaptado para o cinema, sobre o período final do escritor e conde russo, quando ele rompeu com sua vida de excessos, abandonou suas propriedades e se tornou um beato fundador de uma espécie de nova ortodoxia cristã. Tomado por uma febre de devoção, Tolstói negou também seu passado como ficcionista e dramaturgo. Foi assim que se valeu do exemplo de Shakespeare, em cuja obra se baseou na juventude para escrever seus próprios dramas. Feitas essas ressalvas, o estudo de Tolstói sobre Shakespeare é um exemplo de demonstração lógica e de força de pensamento em benefício da crítica. Mesmo que o leitor não consiga crer em suas afirmações, ele pode contrair um vírus de desconfiança. Em outras palavras, Shakespeare jamais terá sido o mesmo ao leitor depois que ele compreender as razões de seu detrator russo. A consequência da leitura desse texto der Tolstói é, no mínimo, a desautomatização de alguns hábitos e certezas.

    A partir de suas considerações, nos damos conta de que muitas vezes somos condicionados por ideias e valores adquiridos por força da opinião de supostas autoridades. A tendência é curvar-se diante de grandes nomes que impõe a submissão a outros nomes ainda maiores. O passado pesa nas nossas costas, sobretudo no que diz respeito às aquisições artísticas e culturais.

    A atitude reverencial diante de Shakespeare atingiu o uníssono perfeito em um processo que se prolonga há mais de dois séculos. O poeta Johann Wolfgang Goethe na Alemanha e os dramaturgos Alexandre Dumas e Victor Hugo na França se esmeraram em coroar Goethe o supremo poeta dramático da Europa. Os românticos adotaram-no suas peças como modelo e os críticos britânicos se devotaram em disseminar sua fama pelo mundo inteiro. Sua glória só fez crescer, isso depois de seu nome ter sido meio esquecido entre meados do século XVII e quase o século XVIII inteiro, não fossem os esforços do crítico inglês James Boswell. Nos dias atuais, o crítico americano Harold Bloom atribui a Shakespeare a invenção do que entendemos hoje por “humano”. Toda semana são publicados ensaios exaltados seja interpretando a arte poética e dramática do escritor, seja abordando sua vida, aliás escassa em documentos, um quase não fato que permite as mais variadas especulações: para alguns analistas vitorianos, as obras shakespeariana teriam sido de autoria do filósofo Francis Bacon; outros a atribuem a um certo fidalgo que apenas teria pago o empresário do The Globe Theatre para encobrir a real identidade do autor de obras-primas. E ainda que a autoria seja questionada – inclusive por scholars os mais rigorosos -, seu valor artístico é inquestionado em sua totalidade, como se o monumento não exibisse brechas, emendas e falhas.

    O caso de Shakespeare só é comparável na cultura ocidental ao do poeta grego Homero. Ambos os autores foram monumentalizados e convertidos em modelos do ápice da perfeição artística. Shakespeare até perdoa Homero, pelo pioneirismo e por cenas realmente tocantes. Para ele, se a tradição homérica tem um uso pedagógico de formação estética e ética dos povos, a posteridade shakespeariana mais recente se afigura deletéria. Ele conta que, aos 75 anos, releu as peças de Shakespeare – e voltou a elas ao longo de 50 anos, tentando se convencer de que sua primeira repulsa era injusta. Mas foi em vão, pois “com força ainda maior experimentei a mesma sensação, não mais de perplexidade, mas a firme e indubitável convicção de que aquela fama inquestionável de escritor grande e genial que Shakespeare possui, que obriga escritores do nosso tempo a imitá-lo, leitores e espectadores, falseando sua compreensão estética e ética, a encontrar nele méritos inexistentes, é um grande mal, bem como qualquer mentira”.

    Em seu longo ensaio, Tolstói quer demonstrar que não apenas Shakespeare não é um grande gênio, como não pode nem mesmo merecer o título de artista. “Embora eu saiba que a maioria das pessoas acredita tanto na grandeza de Shakespeare que ao ler este meu juízo não irá admitir nenhuma possibilidade de sua justiça e não lhe dará atenção nenhuma, ainda assim tentarei, do jeito que puder, mostrar porque penso que Shakespeare não pode ser reconhecido como autor grande e genial, nem sequer como mediano”, afirma.

    Para demonstrar sua tese que a muitos soa ultrajante, ele se detém na análise detalhada de Rei Lear, a peça mais consagrada do autor, tida como perfeita. Abordando cena a cena, fala a fala, ele demonstra que esta obra do autor – o que não dirá as outras menos recomendadas – fere as regras estabelecidas da grande arte teatral. A começar pelo artificialismo da trama: a coerência entre os personagens, suas atitudes, sua personalidade, os acontecimentos que os envolvem e as lutas que eles travam para enfrenta-los. Shakespeare não consegue, segundo o escritor russo, criar a ilusão teatral, já que a luta dos personagens não resulta do curso natural dos acontecimentos, e sim estabelecida de forma arbitrária. A segunda razão da repugnância de Tolstói reside na incoerência histórica, no anacronismo de seus personagens que falam, agem e vivem de forma inapropriada à época e ao local em que se passa peça. O terceiro defeito está no exagero em que situações são dramatizadas. Citando Goethe, diz; “Você vê a premeditação e isso lhe estraga o estado de espírito”. Assim, alguns recursos, como arrastar cadáveres ao final de muitos dramas shakespearianos, provocam menos compaixão do que gargalhadas.

    Ao abordar a linguagem dos personagens, Tolstói observa que o poeta inglês não sabe multiplicar as vozes no palco, mas usar sempre a mesma fala empolada e artificial, sem que cada personagem se comunique com a fala condizente com sua personalidade ou condição social. Os personagens são construídos de forma tosca. Sobrevivem aqueles que foram retirados diretamente de peças de outros autores. E mesmo assim Shakespeare perde o ponto, como acontece com o personagem de Lear, extraído de uma tragédia anônima. Hamlet, por exemplo, fala como “uma espécie de fonógrafo de Shakespeare”, transmitindo recados do autor ao longo do drama. “Mas , por ser ponto pacífico que o genial Shakespeare não pode escrever nada ruim, os eruditos direcionam todos os esforços da mente para encontrar a extraordinária beleza naquilo que é um defeito óbvio e salta à vista, que se expressa de forma especialmente aguda em Hamlet, isto é, que o protagonista não tem nenhum caráter. E então os críticos compenetrados declaram que nessa peça, na pessoa de Hamlet, está expresso um caráter completamente novo e profundo, que consiste exatamente no fato de esse personagem não ter caráter, e que nessa ausência está genialidade da criação de um caráter profundo!”

    Sim, Tolstói muitas vezes se exalta. Mesmo assim, é capaz de encontrar pelo menos uma virtude em Shakespeare: a capacidade de conduzir cenas em que se expressam os sentimentos. Shakespeare seria um mestre na amplificação, na junção e combinação de vários sentimentos contraditórios – fato que ganha relevo pelo trabalho de grandes atores.

    A condenação mais séria de Tolstói a Shakespeare se dá no plano do efeito moral. A arte, segundo o autor russo, tem de provocar no espectador a ilusão do vivido e, com isso, despertar a identificação entre público e personagem, a compaixão, a simpatia, a ilusão de que ele, espectador, vive o drama no palco. Mas nada disso acontece em Shakespeare. ‘Por mais que se comentem e se admirem as obras de Shakespeare, ou a despeito da qualidades que lhe sejam atribuídas, é indubitável que ele no era um artista e que suas obras não são obras de arte”. Afirma Tolstói. Shakespeare seria um mero montador de espetáculos, sempre em busca do acúmulo dos efeitos espetaculares, em detrimento de qualquer grandeza humana. Para o russo, a teoria moral de Shakespeare consistiria na defesa dos privilégios da aristocracia, no ódio à vulgaridade do povo e o desprezo ao mundo. Shakespeare não vislumbrava a possibilidade de mudança da história.

    É preciso entender os critérios que regem as convicções de Tolstói. Ele afirma que o valor de qualquer obra de arte é definido por três aspectos: o conteúdo da obra – quanto mais significativo para a vida humana, maior a obra -; a beleza e as técnicas com que essa é alcançada; e, finalmente, a sinceridade: “o próprio autor deve sentir de forma aguçada o que está sendo representado por ele. Sem essa condição não pode haver nenhuma obra de arte, pois a essência da arte consiste no contágio daquele que percebe uma obra com sentimentos do autor.” Ora, o conteúdo das peças de Shakespeare, “representa uma visão do mundo mais baixa e trivial, que considera a superioridade aparente dos poderosos uma verdadeira vantagem de pessoas que desprezam a mas, isto é, a classe trabalhadora. Negam quaisquer aspirações não apenas religiosas, mas também humanitária, empreendidas para mudar a ordem vigente”. Assim, as obras de Shakespeare não correspondem às exigências da obra de arte de acordo com Tolstói. O louvor que lhe dedicam é “insano”. Shakespeare se transformou em um dogma devido ao papel dos intelectuais românticos, que viam em suas peças um modelo para refutar o teatro clássico herdado pelos franceses. É o ceticismo dos românticos e pósteros que converte o teatro em mero entretenimento cruel, como o fizeram os romanos na era antiga com o teatro grego. A atitude “antirreligiosa e amoral” da sociedade atual é próxima à visão de mundo sinistra e depravada de Shakespeare.

    Cabe aqui reparar que para Tolstói a arte deve possuir uma função restauradora da religião e da moral. Shakespeare encarna tudo o que o escritor russo enxerga nas multidões do novo século. A concepção imoral do mundo dessas multidões é a mesma de Shakespeare.

    Examinados em perspectiva, os dois autores encarnam visões de mundo opostas: Shakespeare é profano; Tolstói, religioso. Obviamente, o mundo tornou-se mais parecido com Shakespeare do que com Tolstói. Daí a razão de Shakespeare nos parecer mais moderno, mesmo que sendo duzentos anos mais velho que Tolstói. No entanto, os artistas não devem ser medidos nem sorvidos por suas visões de mundo, mas pelo que legaram em suas obras. Tolstói não admitia ver humanidade nas profanações e grosserias shakespearianas. Hoje podemos senti-lo mais humano. E algumas obras de Tolstói perderam a atualidade justamente por aquilo que guardam de tediosa pregação religiosa. Hoje apreciamos mais o monstro divertido que o beato sonolento. Por isso, gosto mais das obras do Tolstói cético, como Guerra e Paz e Ana Karenina. O romance Ressurreição ou a novela Felicidade conjugal são obras de tese tardias menos afeitas ao nosso paladar por refinadas crueldades.

    Concluo, portanto, com o possível iníco de um artigo. Após todas essas considerações, resta a dúvida: mesmo que a obra de Shakespeare tenha resistido à crítica de Tolstói (como creio que resistiu), ele ainda pode ser considerado um gênio e sua obra, o ápice da perfeição? É a dúvida deixada no ar pelo grande autor russo.

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