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Inicial Fórum Discussão Geral Discussão Geral sobre Shakespeare A tragédia grega e a tragédia shakespeariana

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    Andréia Fernandes

    A importância de se estudar a tragédia, sempre e cada vez mais, confunde-se com a importância de se estudar a obra de arte como elemento catalisador de toda uma cultura. Muito já se falou sobre tragédia. Mas se compreendermos as grandes obras literárias como textos abertos, reticentes e sempre precipitadores de novos, e sempre outros, significados, somos forçados a admitir que tudo aquilo que já foi dito pode e deve se deslocado inesgotavelmente. Tudo o que já foi escrito nunca foi suficiente nem nunca será, uma vez que a grande obra de arte se esquiva a qualquer definição acabada.

    O trágico esteve presente em diversas manifestações artísticas que o homem já concebeu. Talvez isso seja conseqüência da perplexidade do homem diante do sofrimento e da morte. A tragédia, o elemento trágico transposto para o drama, é mais um dos esforços humanos de compreender o incompreensível, ordenar o caos e situar o ser humano diante da vida.

    A tragédia, desde quando foi concebida na Grécia Antiga, volta a aparecer em vários outros momentos da vasta cultura ocidental. Ela aparece transformada, transfigurada, mas me parece que no centro continua a girar o herói trágico, vítima de uma contradição intransponível. Essa contradição, esse conflito insolúvel, espelha todo um campo de reflexão.

    Dois grandes momentos da tragédia na história do teatro ocidental foram a tragédia grega e a tragédia shakesperiana. Ao comparar o conflito trágico nesses dois momentos, percebemos um deslocamento do núcleo trágico. Se os dramaturgos atenienses estabeleciam o conflito contrapondo a vontade humana à vontade divina, em Shakespeare há uma modificação: o conflito é entre homem x homem.

    Como conseqüência desse deslocamento, percebemos uma alteração da visão absolutamente amoral do mundo grego para uma visão mais humana em Shakespeare, onde se coloca a luta do bem contra o mal. E para que se perceba com maior clareza esse deslocamento, faremos algumas considerações específicas sobre a tragédia grega e a tragédia shakespeariana.

    A TRAGÉDIA GREGA

    A tragédia grega se alimenta do mito para recriá-lo. O discurso mítico em seu paradigma religioso original é veículo da verdade e dos modelos de comportamento seguidos por toda a comunidade. A palavra mítica faz circular a palavra e a vontade divinas e portanto é signo inequívoco do sagrado. Mas essa palavra mítica no solo crítico e racional da Grécia do século V A.c., se torna objeto de reflexão e de debate. A verdade sustentada pelo mito é agora redimensionada. Na tragédia, a palavra mítica adquire outros significados. Traz à tona a ambigüidade do mito e explica o que ele antes ocultava: o lado sombrio da justiça divina, o poder de engano e erro com que os deuses circundam o destino do homem sempre cego em relação ao sentido último dos seus próprios atos.

    A tragédia, na Grécia, vem colocar pela primeira vez o passado em contato com o presente, aproximando o homem comum do herói, revelando para a comunidade o conflito em que ela agora se via mergulhada: o conflito entre a justiça dos homens, em seu novo exercício de liberdade, e a antiga justiça divina, aprisionadora da vontade humana. A verdade absoluta do mito é abalada. Mas se os valores antigos são questionados, ainda estão revestidos de toda a sua autoridade, autoridade essa que é a própria base da cultura ateniense. Nessa ambigüidade surge o conflito, já insolúvel. O mito, pertencente ao imaginário grego, choca-se com a “realidade” de uma sociedade que começa a privilegiar a razão e a liberdade individual. O conflito trágico se estabelece na Grécia Antiga: a contradição entre a vontade divina e a vontade individual.

    No centro desse conflito se encontra o herói trágico. E esse herói, em sua trajetória, adquire aos olhos do espectador/leitor, “luz e sombras”. Iluminado por seus feitos heróicos, é sempre reconhecido por sua virtudes gloriosas e carrega na sua história individual provas da qualidade do seu caráter. O herói é sempre alguém capaz de ocupar os mais nobres postos, tamanha sua força e coragem. Mas é justamente no alto de toda a sua dignidade que surge também o seu lado sombrio, obscuro, capaz de cometer o pior dos crimes.

    Na Tragédia Grega o herói aproxima-se do homem real. Essa aproximação é fundamental à identificação do espectador/leitor com o herói. Através dela o cidadão comum sofre e se lamenta junto com o protagonista. A catarse se concretiza e a tragédia se completa como obra. Numa passagem do livro XII de “Poética”, Aristóteles faz a seguinte declaração:

    “Como a composição das tragédias mais belas não é simples, mas complexa, e além disso deve incitar casos que suscitam o terror e a piedade (porque tal é o próprio fim desta imitação) evidentemente se sugere que não devem ser representadas nem homens muito bons – caso que não suscitaria nem terror nem piedade mas repugnância – nem homens muito maus que passam da má para boa fortuna, pois não há coisa menos trágica do que esse efeito (…) A piedade tem lugar a respeito do que é infeliz sem o merecer e o terror, a respeito de nosso semelhante desditoso”. (Aristóteles, “Poética”. In. Os Pensadores. Tradução de Eudoro de Souza, São Paulo, Abril Cultural, 1973).

    Esse nosso semelhante desditoso não é completamente bom nem completamente mau. É o homem comum, que erra constantemente. É o cidadão honrado que está sujeito ao engano, não porque seja vil, mas por uma carência intelectual humana, uma incapacidade para a compreensão do agir correto diante das visissitudes da vida.

    Na tragédia grega isso fica mais claro quando percebemos o papel fundamental que o encadeamento das ações exerce sobre o herói. O desenrolar dos acontecimentos surpreende o herói, atropela-o. O herói, cego em seu destino, frágil no seu discernimento humano e preso ao acontecer da vida, erra e cai no abismo. A falta, o tropeço humano advêm de uma total impotência do espírito humano diante da superioridade das forças contrárias.

    Mas o erro trágico não carrega nenhuma conotação moral. Uma leitura cuidadosa da “Poética” não nos deixa desviar para o caminho que supõe o erro trágico como alguma deficiência moral no caráter do herói. Não podemos jamais compreender a palavra harmatia no sentido do pecado ou baixeza de caráter. Não há espaço para qualquer conotação moralista.

    No entanto, esse erro ou falta não deixa de ser hediondo. Apesar desse erro ser fruto de uma fragilidade humana, é condenável. Essaharmatia sem culpa moral leva o homem a cometer, mesmo “sem querer”, crimes bárbaros. Entre as duas forças incompatíveis, a fatalidade e a liberdade humana, fica difícil discernir os limites do erro sem culpa e do crime condenável. Esse é o cerne do conflito para o qual não há solução. Sabe-se que por trás da opção humana absolutamente individual há os braços da fatalidade empurrando o herói. Assim, quando Apolo prediz o futuro a Édipo ou comanda a Orestes o assassinato de sua própria mãe, não fica excluída, absolutamente, a vontade humana que leva esses heróis a cometerem seus crimes.

    Na tragédia grega o erro não é resolvido por um simples ajuste entre crime e castigo. O erro do herói tem conseqüências muito mais amplas do que o sofrimento que se inflige a ele. É toda a sua descendência que de agora em diante está condenada. Esmaga-se o homem para que o equilíbrio do universo possa ser restabelecido. O que se esmaga é a liberdade individual sem no entanto eliminá-la.

    E a tragédia vai além. O herói, no momento da queda, percebe que seus atos não encontram mais legitimidade nem entre os deuses nem entre os homens. Vivendo o mais profundo dilaceramento interno, o herói ressurge glorioso na consciência do seu erro. Nesse momento derradeiro, tem a coragem de assumir que esteve absolutamente sozinho em sua escolha. Neste último lampejo de lucidez toda a piedade e todo horror se derramam.

    A TRAGÉDIA SHAKESPEARIANA

    Outro grande momento da tragédia foi alcançado com William Shakespeare. Esse grande gênio, poeta e dramaturgo escreveu inúmeras peças abrangendo todos os gêneros: tragédias, comédias, dramas histórios. Falar de William Shakespeare sempre me pareceu reduzi-lo na sua grandeza: é como tentar definir o indefinível, alcançar o inalcançável. No entanto, tentarei fazer algumas considerações sobre algumas de suas tragédias para justificar o que se pretende estudar com esse projeto.

    Shakespeare não se limita a um único tema como fonte para suas peças. Ao contrário dos gregos que se inspiraram unicamente no mito, Shakespeare se serviu de várias fontes para sua dramaturgia: mitos, contos populares, poemas, e até peças já escritas. Qualquer historieta na mão desse gênio seria transformada numa grande obra.

    No entanto, tal qual os gregos, falar de reis também fascinou Shakespeare. Especialmente nas suas tragédias, a realeza ocupa um lugar de destaque. Ao contar a tragédia desses reis, Shakespeare também nos conta a luta pela coroa na Inglaterra, assim como os dramaturgos gregos nos contaram, através da história dos seus heróis, a construção da cultura ateniense. Já não falo só dos dramas históricos que fazem referência direta aos reis da Inglaterra. Outros reis de sua dramaturgia, que aparentemente viveram em qualquer parte da Europa, são, de fato, alusões aos reis ingleses. E Shakespeare vai além. Ao falar da história da Inglaterra, ele nos fala também do homem e de sua luta nesse mundo.

    Podemos também perceber que nas suas crônicas-históricas, Shakespeare nos revela toda a visão trágica que ele tem da própria história. Essa visão trágica de Shakespeare sobressai quando olhamos sua obra em conjunto. A história se repete no seu círculo infernal e permanece no mesmo lugar. O homem, iludido que possa alcançar um lugar na História, erra, comete os piores crimes. Mas essa mesma história se encarrega de “primeiro torná-los números, para depois cortar-lhes a cabeça”, como disse Yan Kott.

    Entretanto, essa visão trágica de Shakespeare difere fundamentalmente da visão grega. No conflito trágico de Shakespeare não existe a mão do divino como na tragédia grega. O que existe é somente o homem em luta contra ele mesmo. Para entendermos melhor essa transformação, é preciso situar Shakespeare no contexto em que ele viveu.

    A Renascença é um período de transição entre o mundo medieval e o mundo moderno. O universo aristotélico acaba de desabar e toda a cosmovisão medieval está profundamente abalada. Tudo se desordena, nada tem mais o seu lugar natural como definia Aristóteles. Sofrendo as conseqüências desse abalo, o dogma cristão passa a ser redimensionado. Na Inglaterra renascentista, o protestantismo surge como uma nova visão do cristianismo.

    É interessante notar que de novo temos no renascentismo o paradigma religioso, novamente colocado em terreno racional, assim como na Grécia Antiga. O mito é posto em cheque, mas não esvaziado na sua autoridade como veículo da verdade e como modelo de comportamento para a comunidade. Nesse choque surge novamente o terreno perfeito para a tragédia.

    Mas a visão do cristianismo é fundada na idéia da salvação e da misericórdia divina, o que difere completamente da visão dos gregos. Os deuses gregos poderiam ser tudo menos misericordiosos e preocupados com a salvação humana. Shakespeare, embora não seja cristão em sua obra, vive nesse mundo cristão e muitas vezes é preciso inseri-lo neste contexto para melhor compreendê-lo. Não se pode jamais conceber que um Ricardo III ou um Macbeth pudessem achar justificativa para seus crimes na vontade divina. Para Shakespeare o homem é a medida de todas as suas vontades. Como conseqüência, o conflito na tragédia shakespeariana é produzido unicamente pela vontade humana.

    O conflito trágico em Shakespeare é o do homem abandonado ao seu próprio destino, perdido no meio do Universo, incapaz de perceber coisa alguma, preso a sua visão unilateral e por isso deformada do mundo.

    Também não me parece que Shakespeare coloca o ser humano numa luta sem tréguas com seus demônios interiores, como Eurípedes colocou. Para Shakespeare, diferente dos gregos, a idéia da salvação está sempre presente, embora o fio que conduz a ela seja muito frágil e tênue. O “perigo” está sempre à espreita. É muito fraco o discernimento humano para não cair no abismo.

    Os grandes homens, os reis, chefes de estado, justamente os homens que deveriam estar mais próximos de Deus – o poder é ainda uma concessão divina no Renascimento – são aqueles que mais facilmente se perdem. Para Shakespeare, o poeta da grandeza maculada de sangue, o homem é cego e incapaz de agir corretamente diante de tamanha responsabilidade.

    O deslocamento do conflito grego onde o herói se encontra entre a justiça divina e a sua própria justiça para o conflito shakespeariano, onde o herói é vítima de sua própria vontade, estabelece uma modificação profunda entre esses dois grandes momentos da tragédia. Para o grego, o herói mergulha no abismo cego em seu último destino. Aí não há nenhuma conotação moralista. Para Shakespeare, o homem percebe o abismo, mas é incapaz de fazer parar a força que o empurra para a queda.

    Shakespeare, ao fazer o teatro do indivíduo, enriqueceu a cena com a mais vasta coleção de personagens: reis, rainhas apaixonadas, vagabundos, andarilhos, heróis, jovens, velhos, donzelas e amantes desesperados povoam o cenário shakespeariano. A vivacidade e a intensidade com que esses personagens são desenhados pela mão do mestre junta-se ao dinamismo de suas peças: risos, lágrimas, paixões, ambições e traições atropelam-se na mesma obra. O resultado é o profundo mergulho na personalidade humana e com tal riqueza de nuanças e detalhes, que mesmo diante do mais atroz dos vilões somos obrigados a um sorriso de condescendência.

    A grande plasticidade dos caracteres shakespearianos também está relacionada com o fato de que a ação não serve principalmente para gerar o conflito como na tragédia ática. A ação em Shakespeare se presta também a enriquecer o que está sendo representado: o herói adquire outras perspectivas, outras facetas do seu temperamento são reveladas. Desse modo, as personagens de Shakespeare aproximam-se do homem “real” de forma quase assustadora. E é essa “realidade” que nos faz estremecer diante de um Macbeth, de um Iago, de um Hamlet.

    As personagens trágicas de Shakespeare também se aproximam do herói trágico grego, na medida em que são dotados de “luz e sombras”. Macbeth é fiel servidor de seu rei, e aproxima-se deste justamente por seus grandes feitos e coragem. Mas é essa aproximação que é perigosa. Macbeth sente o cheiro do poder. Esse cheiro domina-o e ele se deixa arrastar por forças que já não controla mais. Está obstinado, e na sua obstinação soltam-se as amarras, alargam-se os limites. É quase em desespero que ele deixa surgir o monstro, o assassino, o sanguinário. Mas o homem é esmagado pela fatalidade, pela força impiedosa da vida, pelo processo inexorável da história. E no final, diante da sua derrota iminente, Macbeth se ilumina de novo. Ressuge com toda a sua dignidade para compreender que o homem não passa de um fantoche.

    “É uma história contada por um idiota cheio de fúria e tumulto, mas no fim sem significado nenhum”. (“Macbeth”, v. 5)
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    Artigo extraído da revista Cadernos de Teatro nº 145/1996. Andréia Fernandes á atriz, diretora e professora de Improvisação no Tablado.

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