Por favor, considere doar qualquer quantia para mantermos o site. Please consider donate.

Main Forum (Português) Sonetos e Poemas de Shakespeare (Português) Os Sonetos Estética da Recepção: Os Sonetos no Século Dezenove

Ansicht von 1 Beitrag (von insgesamt 1)
  • Autor
    Beiträge
  • #10911

    ShakespeareBr
    Keymaster

    Tradução por Rafael Antonio Blanco.

    As duas visões opostas de Nathan Drake sobre os Sonetos, refletindo uma significante alteração de sua opinião de 1800 a 1817, exemplifica bem o entusiasmo crítico geral em relação aos poemas de Shakespeare na era Romântica. Em seu primeiro ensaio, a profunda rejeição de Drake aos Sonetos continuava comum entre seus iguais, e ele especificamente elogiou George Steevens por excluir os Sonetos da sua coleção mais digna das peças de Shakespeare. Em 1817, entretanto, ele encontrava muito o que admirar nos esforços líricos de Shakespeare. Podemos localizar a semente da sua aprovação tão cedo quanto 1798, quando Drake dedicou uma seção de seu Horas Literárias para a forma do soneto, traçando seus usos em poetas como Dante, Spenser e Milton. George Steevens, pelo contrário, pensava que a forma ela mesma não merecia tamanha atenção. No mesmo ano, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge revolucionaram o verso Inglês com a publicação das Baladas Líricas; seu prefácio influente em pouco tempo levou o gosto poético Inglês para longe do neoclássico polido e das contaminações mitológicas do século dezoito. Em vez disso, Wordsworth elogiava a poesia por ser um “transbordamento espontâneo de sentimentos poderosos” originando em “emoção recolhida na tranquilidade,” e essa forte divergência estética garantiu uma renovada apreciação dos sonetos de Shakespeare orientados pessoalmente, emocionalmente intensos.

                A nova atração Romântica por vívida personalidade – de um homem falando com um homem, no vocabulário de Wordsworth – incluía tanto as vozes poéticas falando dentro do poema, quanto a biográfica, o sujeito histórico do poeta real. Com efeito, essas duas vozes eram mais admiradas quando pareciam apenas uma. Wordsworth elogia Shakespeare em 1815 em seu “Ensaio Suplementar” por capturar nos sonetos os sentimentos da “sua própria pessoa.” Para Wordsworth, esses poemas, inigualados por nenhuma outra obra de Shakespeare, contém “um maior número de sentimentos esquisitos expressados alegremente.” Wordsworth atribuiu a censura dos editores anteriores “a muito comum propensão da natureza humana em jubilar-se com a suposta queda em um atoleiro de um gênio.” Doze anos depois, no seu poema bem conhecido “Não despreze o Soneto,” ele mais ousadamente validou as complexidades formais da forma do soneto. Numa nota marginal muito anterior, ele criticou os poemas de Shakespeare por serem “tediosos” e de “obscuridade elaborada,” uma censura característica do jovem Wordsworth, ou o Wordsworth do século dezoito, como Jonathan Bate o chama. Agora, no soneto posterior, Wordsworth declara que “com essa chave / Shakespeare destrancou seu coração.”

    Escrevendo quase meio século depois, como um poeta Vitoriano e não como Romântico, Robert Browning compôs uma refutação a Wordsworth que se provou memorável. “Devo eu cantar você em sonetos sobre mim? / Vivo numa casa que você gostaria de ver?” seu poema “House” debochadamente inicia-se. “Destranco meu coração com a chave de um soneto?” Como seu tom torna claro, Browning não tinha intenção de o fazer, e, além disso – “O fez Shakespeare? Se sim, o menor Shakespeare ele!” Por que Browning estava tão determinado em sua discordância em relação as efusões de Wordsworth? Por que o deixava tão desconfortável a possibilidade que Shakespeare a pessoa pudesse ter sido tão transparente nos sonetos? Para Browning – que foi o grande poeta dos monólogos dramáticos, o grande ventriloquista do verso – Shakespeare seria menos pessoa, e poeta, se ele meramente derramasse seu coração nas 14 linhas de um soneto. Browning, em vez disso, valorizava a habilidade de Shakespeare criar, como se do nada, a personalidade real em termos dramáticos (O famoso elogio de Keats à habilidade de Shakespeare de “capacidade negativa” em criar personagens genuínos para o palco também vêm à mente.) Em outras palavras, Shakespeare era mais ele mesmo, ou melhor expressava a sua personalidade poética, quando Browning poderia imaginá-lo compondo por trás do véu do artista impessoal. Wordsworth, pelo contrário, dedicou seu grande poema autobiográfico O Prelúdio a mapear o “crescimento da mente do poeta.” A época de Browning não era a de Wordsworth, e foi a época de Wordsworth que enamorou-se como a “miscelânea” de poemas de Shakespeare e a pessoa que o escreveu. 

                Deve ficar claro que, por consequência, Edmund Malone, com sua abordagem intensivamente biográfica a Shakespeare, não foi o único a conduzir a esse novo interesse nos Sonetos. Em uma direção diferente, mais acadêmica e atual, August Wilhelm Schlegel e Frederick Schlegel influenciaram os leitores românticos. Para August Wilhelm Schlegel, os Sonetos, “pintaram de forma inequívoca a situação atual e os sentimentos do poeta.” De maneira mais intrigante, eles são “confissões notáveis de seus erros de juventude,” e August Wilhelm castigou os estudiosos Ingleses por não fazerem uso do óbvio recurso biográfico. Frederick Schlegel mais geralmente elogiou a “extrema suavidade” do poeta, “tão esquisito e tão profundo,” registrado claramente nos sonetos e assim provando quão diferente era a sensibilidade de Shakespeare das criações para o palco, desenhadas do “mundo conforme estava claramente diante dele.”

                O momento era poeticamente maduro também. Poetas como Wordsworth e Keats puderam não apenas apreciar a voz pessoal de um gênio nos Sonetos, mas também eram ambiciosos e passionais o suficiente para identificarem-se de formas pessoais com o grande precursor. Assim Wordsworth imagina Shakespeare suspirando sobre o ato de conceber grandes pensamentos na solidão, que parece uma coisa muito mais provável para um poeta Romântico como Wordsworth. Similarmente, Keats escreve em uma carta quanto o excitaria olhar Shakespeare – para ver como ele se sentava! – ao compor o discurso do “Ser ou não ser” de Hamlet. Dito isso, a realização editorial prosaica de Malone certamente teve seu papel na reputação recém elevada dos Sonetos. Como Gary Taylor escreve em Reinventando Shakespeare,

     

    O reestabelecimento editorial dos sonetos por Malone foi instrumental em transformar Shakespeare do poeta público dramático da Restauração e século dezoito, num poeta lírico privado que poderia ser aceito, celebrado e apropriado pelo Românticos….Shakespeare permaneceu, é claro, primeiramente um dramaturgo; mas os sonetos e os poemas narrativos – recém reestabelecidos ao cânon, até agora totalmente negligenciados pelo críticos – deu aos Românticos a oportunidade de desfrutar da novidade da sua própria perspectiva crítica, enquanto reivindicavam Shakespeare como precursor dos seus próprios gêneros favoritos.

     

    E clamar Shakespeare como um precursor, eles o fizeram. Wordsworth e Keats ambos engendraram homenagens fundamentais aos poetas; eles ecoaram e reutilizaram as linhas dos Sonetos de Shakespeare para dar à sua própria poesia mais autoridade e profundidade. Os sonetos de Shakespeare influenciaram o soneto “Dormir” de Wordsworth enquanto o seu “Prospecto” a O Recluso e partes de O Prelúdio emprestam frases dos sonetos 107, 116, e outros. Keats quota o soneto 12 com aprovação numa carta de 1817, e a imagética desse poema aparece na grande ode de Keats “Ao Outono.” Também influencia o soneto de Keats “Quando tenho medo,” assim como o faz o soneto 64 de uma maneira mais estrutural. Como Jonathan Bate escreveu: “Com “Quando tenho medo que eu possa cessar de ser,” o soneto shakespeariano foi ativamente revivido, formalmente e tonalmente, por um grande poeta Inglês pela primeira vez em duzentos anos.”

    Essa intensa resposta em relação a Shakespeare e sua poesia pode ser também imprevisível e contraditória. Alguns breves comentários por dois outros Românticos, Samuel Taylor Coleridge e William Hazlitt, mostraram que a época não mudou completamente para além das fontes de elogios de seus predecessores e certas ocasiões de consternação. Comparativamente, Coleridge certamente desprezou a poesia em favor da grandeza das peças, e mesmo entre a poesia, ele mais frequentemente elogia a vividez e a compressão de Vênus e Adônis. Um registro de um discurso descreve como Coleridge falava brevemente sobre ambos os poemas narrativos, “mas ele passou completamente sobre os Sonetos e não fez nenhuma nota sobre a recepção que os poemas tiveram entre os críticos modernos.” Referências a certos sonetos recorrem nos livros de anotações de Coleridge, e ele ao certo admirava alguns poemas tremendamente e pensava muito pouco sobre outros. Em uma palestra ele desdenha um poema de John Donne ao notar, “Shakespeare não tem nada disso. Ele nunca é positivamente mau, mesmo em seus Sonetos.” Ainda em seu Biographia Literaria, sua maior obra crítica, ele isola linhas de três sonetos para demonstrar como na grande poesia, as imagens são “modificadas por uma paixão predominante.” Shakespeare, ele continua, “ainda dá uma dignidade e uma paixão aos objetos que ele apresenta…eles emergem sobre nós ao mesmo tempo em vida e poder.” A mais longa e memorável resposta de Coleridge ocorre quando ele encontra uma nota marginal de Wordsworth numa antologia de poesia. Mencionados anteriormente, os comentários de Wordsworth referem-se aos sonetos finais de Shakespeare, endereçados à Dama Negra, como “abominavelmente duros, obscuros e imprestáveis.” Ele é mais generoso com os primeiros poemas, que considera “quentes de paixão.” Coleridge honra seu amigo ao dizer que mesmo essa pequena nota será, nos tempos futuros, uma “relíquia reverencial,” mas ele difere da opinião de Wordsworth, elogiando os Sonetos,pelo contrário, por ajudar a “explicar a mente de Shakespeare” e por serem “tão cheios de pensamento e a mais esquisita dicção.” (Como vimos, esse adjetivo rapidamente vem à mente de muitos, ao descreverem esses poemas e o poeta que eles pressupõem.) Coleridge, entretanto, tem grande embaraço ao justificar as dinâmicas sexual dos Sonetos. Sua pretendida audiência futura, seu filho Hartley, pode lançar alguma luz no tom peculiar aqui, onde ele enfatiza o “amor puro” que Shakespeare deve ter sentido, o que quer dizer que ele reconhecia que o Jovem Homem não era um “possível objeto de desejo” num sentido físico.

    Essa tensão percebida leva Coleridge ao soneto 20, que fala da “master-mistress.” Para ele, a sua retidão deixa claro que Shakespeare nunca pensou seriamente em consumação física, nem temeu a recriminação de outros por tratar poeticamente o tema. “Meu doce Hartley!” Coleridge exclama, mostrando uma preocupação perante o bem-estar futuro de seu filho que não é diferente da preocupação do poeta pelo Tempo ameaçar o Jovem Homem nos Sonetos. É esse contexto fraternal, talvez, que faz Coleridge tão cauteloso na sua visão ideal de Shakespeare, o Grande Homem: “Eu peço ferventemente que tu possas conhecer no âmago, quão impossível foi para Shakespeare não ter sido em seu coração puro de coração.” Em seu influente ensaio sobre “edição como formação cultural,” Peter Stallybrass segue a análise de Coleridge sobre o soneto 20. Em 1833, Coleridge discutiu novamente (um registro que pode ser encontrado em seu Falas à Mesa) as defesas anteriores de Malone a um receptor masculino – os elisabetanos comumente falavam com amigos daquela forma, e os homens valorizavam relacionamentos platônico com outros homens, cheios de “afecções para além da amizade e totalmente distantes do apetite.” Entretanto, isso não é mais suficiente para justificar a bravata bissexual do soneto 20; em vez disso, Coleridge suporta a formulação curiosa que Shakespeare pretende parecer um pederasta, ou amante de garotos, com um “propósito cego” de esconder seu verdadeiro amor a uma certa mulher. (Um estudioso alemão estendeu o pensamento evasivo de Coleridge pensando no próprio quarto de 1609, sugerindo que Shakespeare intencionalmente desejava aparecer como se não tivesse envolvimento com a publicação do livro, com vistas a distanciar a si próprio dos seus conteúdos.) Nesses tempos tardios, é aparente para Coleridge que o sentimento genuíno da poesia de Shakespeare veio de “um homem profundamente apaixonado, e apaixonado por uma mulher.”

    Com ainda mais desdém, William Hazlitt também lutou com o espectro da personalidade entre as belezas dos Sonetos. Hazlitt pôde, às vezes, reconhecer à virtude dos poemas, dizendo que “muitos deles são altamente belos por si sós, e interessantes pois eles relacionam-se com o estado de sentimentos pessoais do autor.” Ele sentia mais reservas sobre efusões pessoais em verso, e então ele frequentemente soa desconfortável ao discutir a dimensão biográfica dos poemas. Coleridge em certos momentos chega a conclusões similares – “A poesia de Shakespeare é sem personagens,” ele diz – mas vimos quantas questões de biografia e personalidade o cativavam. Hazlitt, por outro lado, era menos simpático. Ele valorizava a impessoalidade mas também criticava o estilo de Shakespeare. Revertendo os esforços críticos anteriores de colocar os poemas de lado em relação às peças com vistas de justificar os primeiros, Hazlitt declarou francamente que a comparação somente prejudica o status da poesia. “Em uma palavra, não gostamos dos poemas de Shakespeare, porque gostamos das peças.” Comparado com os personagens de sangue quente dos palcos que Hazlitt tanto admirava, os poemas narrativos de Shakespeare eram “um par de casas de gelo…quase tão duras, brilhantes e tão frias.”

    Uma rápida pesquisa nas posteriores reações Românticas continuou a mostrar essas divergências de opiniões. Percy Bysshe Shelly elogiou a qualidade “patética” no soneto 111 de Shakespeare (ele empregou o termo positivamente), enquanto Walter Savage Landor levantou uma objeção que qualquer estudante que lutou para entender qualquer passagem densa, atada e multivalente dos Sonetos irá apreciar: “Eles são quentes e comoventes: há muita condensação, pouca delicadeza: como geleia de framboesa sem creme, sem crosta, sem pão, para quebrar sua viscosidade.” Dito isso, ele preferiria reler um dos poemas de Shakespeare do que a poesia “embolorada” da sua própria “estação tediosa”!

    Pesquisei esses poetas do começo do século dezenove e os críticos desse momento porque foi um momento crucial de reavaliação da reputação dos Sonetos. Muitas nuances que os leitores contemporâneos encontram nesses poemas foram primeiro identificadas durante o período Romântico ou ao menos apreendido ali. A erudição em torno dos Sonetos estava também avançando, apesar de, em retrospecto, nem sempre de forma desejável ou mesmo útil. Duas áreas de foco acadêmico que cresceram exponencialmente durante esse período foram a ordenação dos sonetos (especificamente se o quarto de 1609 ofereceu um arranjo válido, aprovado pelo autor) e as identificações da vida real de vários “personagens” dos poemas, de “Mr. W.H.” da dedicatória de Thorpe ao Poeta Rival e a Dama Negra. Nathan Drake, que já encontramos anteriormente, merece crédito por refutar a explicação da virada do século de George Chalmers – que os poemas aparentemente endereçados ao jovem homem foram todos, de fato, compostos para a Rainha Elizabeth I! – e por sugerir como substituto um candidato que ainda permanece um dos mais respeitáveis e permanente entre as escolhas. Ele sentia que o mais lógico Jovem Homem era Henry Wriothesley, conde de Southampton, a quem Shakespeare dedicou seus dois poemas narrativos e aquele que poderia ser resistente a um casamento na década de 1590 (daí o encargo dos sonetos de “Procriação” 1-17) e as quais as iniciais inversas, pelo menos, eram “W.H.” James Boaden em 1832 pela primeira vez ofereceu a outra mais confiável fonte para o jovem homem, William Herbert, conde de Pembroke. (Note suas iniciais)

    As escolhas dos estudiosos entre esses dois candidatos também presume outras interpretações, nomeadamente, das datas de composições dos sonetos e, relativamente, conjecturas sobre outros membros do “elenco” lírico da sequência. Por exemplo, os partidários de Southampton favorecem uma antiga composição, talvez do final da década de 1580, onde os partidários do mais jovem Pembroke acreditam que Shakespeare escreveu a maioria dos sonetos no meio ou final da década de 1590 e também no século dezessete. Ambos os grupos podem apontar o soneto 107 e apoiarem-se na linha – “A lua mortal manteve seu eclipse” – para dar suporte às suas datas propostas; a linha alude tanto para a destruição da Armada Espanhola em 1588 ou para a doença da Rainha Elizabeth ou sua morte em 1603, dependendo da sua predisposição. No final de 1800, convencido que o Jovem Homem era Pembroke, W. A. Harrison e Thomas Tyler ambos argumentaram que Mary Fitton, dama de honra da rainha, era a Dama Negra, apesar de que um retrato posterior – de uma Fitton de pele clara – tenha minado a teoria deles. Charles Armitage Brown, um amigo de John Keats, publicou o primeiro longo estudo sobre a dimensão autobiográfica dos Sonetos de Shakespeare em 1838, e a ensaísta Anna Brownell Jameson alcançou a obra de detetive de Brown por volta da mesma época.

                Contrariamente, D. L. Richardson, Charles Knight e John Halliwell-Phillipps foram todos shakespearianos do século dezenove que de formas diferentes prenunciaram a ênfase crítica do próximo século. Richardson já em 1835 tinha náusea perante a pressa em se identificar as figuras dos sonetos, e ele pensava que não era improvável que os poemas apontassem para vários indivíduos diferentes, alguns homens e outros mulheres, alguns reais outros totalmente imaginados. Suas reservas de julgamento mostraram uma real apreciação das complexidades fictícias do gênero lírico. Knight sentia que um rápido e estrito julgamento sobre as identificações subestimava a qualidade dramática dos Sonetos e a similaridade da poesia com as peças. Halliwell-Phillipps, pelo contrário, rejeitava identificações muito fáceis do Jovem Homem, não por compartilhar com as apreensões morais dos críticos anteriores, mas simplesmente porque ele pensava que Shakespeare publicar um relacionamento homoerótico e homossexual real tão dramaticamente não era sensível e, por isso, improvável.

                Retirando essas divergências de opiniões, bem no começo do século já estava claro para praticamente todos que os Sonetos de Shakespeare tiveram uma elevação crítica considerável, merecida ou não. Assim James Boswell, um editor das obras de Shakespeare em 1821 que apoiava-se grandemente nas descobertas de Malone, pôde declarar que a condenação de George Steevens dos Sonetos como “inúteis” 40 anos atrás “não converteu nenhum leitor que tem qualquer pretensão de gosto poético.” Os poemas podem não atingir as alturas das grandes tragédias de Shakespeare, ele admite, mas certamente eles se encontram ao lado das primeiras comédias. O historiador Henry Hallam faz um reconhecimento similar, embora ressentido. Apesar de Steevens ter mostrado seu “desdém extremo,” as belezas dos Sonetos são exageradas, “especialmente entre jovens homens com temperamentos poéticos.” Na verdade, Shakespeare empenhou-se mais completamente que qualquer um com “essa espécie de poesia,” que alguém rapidamente infere que é desagradável para Hallam. Ao dizer “é impossível não desejar que Shakespeare nunca os tivesse escrito,” ele serve como um condutor da condenação anterior de Steevens. Felizmente para Shakespeare, os críticos tardios têm sido mais condescendentes e simpáticos. Edward Downden encontra na sequência um jovem homem que luta contra a amargura; os poemas “dizem mais da sensibilidade de Shakespeare do que da força de Shakespeare.” Swinburne, cético sobre “a absurda pirâmide de comentários hipotéticos” que eivaram os Sonetos, aponta para o Peregrino Apaixonado em busca de pistas. Sidney Lanier simpatiza com Shakespeare e seu “drama conectado de seu amor infeliz” ao elevar a traição do Jovem Homem ao “crime mais imperdoável dos crimes.” Ele também faz comparações interessantes entre Shakespeare e a poesia de Philip Sidney e entre as realizações gerais de Shakespeare, Beethoven e Keats.

                Finalmente, Oscar Wilde e Samuel Butler fecham o século com aproximações e reimaginações criativas do mundo dos Sonetos que continuarão a ressoar no século seguinte. Butler insiste que os 29 sonetos finais estão colocados de maneira errônea e que a maioria também é endereçada ao Jovem Homem. Ele assim procura em sua edição “rearranjar”, restaurá-los, através de uma impressionante confiança na inferência, aos seus lugares legítimos dentro da sequência. Ele aplaude Malone, mas está muito mais livre em seus próprios procedimentos editoriais, buscando sobretudo uma história nos sonetos que, segundo ele, encara todo leitor nos olhos. Estudiosos posteriores como A. L. Rowse seguiram as pegadas solucionadoras de problemas do método de Butler. Oscar Wilde finalmente traz uma criatividade similar aos Sonetos, mas a convoca para compor o seu Retrato de Mr. W. H. com um gosto narrativo típico. Alegando resolver os mistérios da dedicatória dos Sonetos, Wilde de fato retorna a uma conjetura anterior de Tyrwhitt e Malone. Ele conta a história de William Hughes, um jovem ator do teatro de Shakespeare. Wilde sobrepuja seus predecessores ao meditar sobre os efeitos da arte e da atuação num relacionamento entre homens. Através das lentes do “criticismo criativo” de Wilde, os talentos de atuação do jovem homem inspiram os ideais poéticos e de criação de ficção do falante. Apesar de as manobras delicadas de Eros serem minadas por uma camada externa de ceticismo: o narrador de Wilde está investigando uma teoria de um amigo, que não mais acredita na sua própria hipótese. O rascunho crítico foi ampliado em 1921 e tem sido frequentemente reimpresso, servindo como uma vanguarda para a ascensão da crítica do final do século vinte, recém conectado com questões de desejo e sexualidade, secretas ou explícitas.

Ansicht von 1 Beitrag (von insgesamt 1)

Du musst angemeldet sein, um auf dieses Thema antworten zu können.

Menü schließen